Alguns romanos dormiam quando a cidade foi tomada pelo fogo. O imperador observava o espelho refletindo sua retina desgastada, e nada sabia. Pensava apenas na própria sorte, numa projeção amarga do futuro. Um futuro que nunca lhe aconteceu de fato. Surpreenderia-se Nero com a inversão de papéis que se operaria após o incêndio? Saberia que os palácios mais suscetíveis são os construídos nos limites da compreensão humana?
quinta-feira, 6 de março de 2008
Se Eu No Seu Olhar, Afinal [Hélice]
Porque me desfaz de um jeito
que eu não posso opor -
sutileza na forma de prazer
[com os lábios pregados no meu]
diverte-se em espasmos coloridos
retardando a condição
de abrigo para a noite escura
que nos cerca, como agora.
É engraçado como o instantâneo
revelado me deixa tão exposto
às artimanhas tão próprias
de você, um vício perdido
para meu mal.
que eu não posso opor -
sutileza na forma de prazer
[com os lábios pregados no meu]
diverte-se em espasmos coloridos
retardando a condição
de abrigo para a noite escura
que nos cerca, como agora.
É engraçado como o instantâneo
revelado me deixa tão exposto
às artimanhas tão próprias
de você, um vício perdido
para meu mal.
E eu me pergunto;
onde caí, onde fui parar?
Pensamentos revestidos de chumbo
Pensamentos revestidos de chumbo
não produzem, estranhamente,
o som metálico quando arrastados
pelo asfalto: são desfacelados
quando seus olhos os penetram
e os buscam, na vigília do amor...
Seria esse o nome de sua insensatez?
o som metálico quando arrastados
pelo asfalto: são desfacelados
quando seus olhos os penetram
e os buscam, na vigília do amor...
Seria esse o nome de sua insensatez?
Incontrolável eu me torno
rondando signos para a corrupção
proposta em seu nome.
Amor, se isto há, se guarda nos dentes,
marcando a língua;
proposta em seu nome.
Amor, se isto há, se guarda nos dentes,
marcando a língua;
não na aspereza libidinosa,
mas na intimidade dos laços atados:
como suas mãos e anéis
anunciando um confronto
um conforto um estorvo
de não estar mais aqui
e ser apenas um rascunho na memória.
Há saída, de outra forma?
quarta-feira, 5 de março de 2008
The Genius Of P. Schrader
- Eu tenho... É que eu tenho... Tenho...
- Está deprimido? Acontece com todo mundo.
- Sim, estou muito deprimido, muito... Eu queria poder realmente... Fazer alguma coisa.
- Com a vida de taxista, quer dizer?
- Bem... Não, é... Não sei. Eu só queria poder... Realmente... Eu queria... Ando tendo umas idéias bem ruins, eu...
- Bem, veja pelo seguinte lado... Quando um homem aceita um emprego... O emprego... Quer dizer... Se torna o que ele é. É como... Você faz uma coisa, você é aquilo. Eu guio táxi há 17 anos, 10 anos à noite... E não tenho táxi próprio. Sabe por quê? Porque não quero. Preciso ser o que eu quero... Trabalhar à noite num táxi de frota. Entendeu? Ao aceitar o emprego, você se torna o emprego. Um cara mora em Brooklyn, outro em Sutton Place... Um é advogado, o outro é médico... Um cara morre, outro sara, entende? Pessoas nascem. Eu invejo a sua juventude. Vá trepar. Encha a cara. Pode fazer o que quiser. Afinal, você não tem escolha. Estamos todos fodidos. Bem, mais ou menos.
- Isso é a coisa mais cretina que já ouvi.
- Não sou Bertrand Russell, sou um taxista, o que você quer? Nem sei do que você está falando, porra!
- Talvez eu também não saiba.
[Do filme Taxi Driver]
- Está deprimido? Acontece com todo mundo.
- Sim, estou muito deprimido, muito... Eu queria poder realmente... Fazer alguma coisa.
- Com a vida de taxista, quer dizer?
- Bem... Não, é... Não sei. Eu só queria poder... Realmente... Eu queria... Ando tendo umas idéias bem ruins, eu...
- Bem, veja pelo seguinte lado... Quando um homem aceita um emprego... O emprego... Quer dizer... Se torna o que ele é. É como... Você faz uma coisa, você é aquilo. Eu guio táxi há 17 anos, 10 anos à noite... E não tenho táxi próprio. Sabe por quê? Porque não quero. Preciso ser o que eu quero... Trabalhar à noite num táxi de frota. Entendeu? Ao aceitar o emprego, você se torna o emprego. Um cara mora em Brooklyn, outro em Sutton Place... Um é advogado, o outro é médico... Um cara morre, outro sara, entende? Pessoas nascem. Eu invejo a sua juventude. Vá trepar. Encha a cara. Pode fazer o que quiser. Afinal, você não tem escolha. Estamos todos fodidos. Bem, mais ou menos.
- Isso é a coisa mais cretina que já ouvi.
- Não sou Bertrand Russell, sou um taxista, o que você quer? Nem sei do que você está falando, porra!
- Talvez eu também não saiba.
[Do filme Taxi Driver]
domingo, 2 de março de 2008
The Killing Moon
Noite de erotismos inocentes, ela olha pela porta e sorri, na celebração da conquista feita. Segue numa comunicação gestual, em que o preço pelos seus lábios se mostra alto demais. O que mudaria àquela altura? Meus olhos marcavam num território domado o desejo iminente. E, avançando em passos lentos, mergulhava num delírio em que o tempo, fora de controle, prolongava-se sem alterar os arranjos da memória, fazendo daquele instante o mais prazeroso de todos.
sábado, 1 de março de 2008
Late In The Day
Foi como aconteceu: estava no meio do trânsito, esperando minha vez. Um caminhão atravessado atrapalhava tudo, ocupando duas esquinas e sem sair do lugar. Avançava aos poucos, e então parei por absoluta falta de espaço. E quando tirava os óculos e enxugava o suor do rosto, ela apareceu. Olhou de relance todos os carros e se pôs a atravessar a rua. Talvez nem tenha me percebido ali, no meio de toda confusão. Talvez nem tenha, é verdade, dado conta do meu olhar fixo e conturbado como os motoristas ao redor. Que o tráfego truncado piorasse, nem me aborreceria mais do que aquela visão inesperada. Porque ela veio e me tirou do sossego, da paz que estava há dias, e me atirou na lembrança suja que guardo sobre seu rosto, a voz que me soa agora irritante; até o cheiro de suor seco que vinha de sua pele quando me aparecia em casa voltou com força à narina. Precisava disso? Precisava confrontar o passado e minhas fraquezas de antes? Não. Mas ela veio das entranhas de um dia que me pareceu ruim e atravessou a rua, quase virando o rosto, mas não completamente, impondo-se completamente dispensável. Coisa pouca, que durou alguns segundos. Mas reabriu o desgaste interior, o ódio arrefecido sem objeto. Já vai tudo tão longe, por que ainda me prende isso?
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Bad Actors With Bad Habits
Os negativos estavam na estante, ao lado dos textos de Apollinaire. O cheiro de serragem por toda parte, e o silêncio absurdo da rua só serviu de pretexto para nossa fuga. O velho barco, encalhado na margem do rio, lembrava a estranheza do destino. Como fomos parar aqui, pensando nessas coisas...? Eu não sabia o que mais estava por vir. O amor começava pela nuca, com os dedos cavalgando a pressa. Fitava as águas rumando para o mar, e me continha. Se era para ser assim, que fosse um pouco diferente. A dez dias para encenação, você não recorda algumas falas. As mais circunstanciais. As outras, extensas, surgem até nos sonhos sombrios da manhã de vanguarda, quando, envenenado pelo ídolo de pedra, só pensei em dizer que não me importo com seu cabelo azul. Quem sabe uma carta febril, que prometo há tanto tempo, conserte um pouco o dia.
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