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quarta-feira, 23 de abril de 2008

I'll Try Anything Once [Parte Três]

Observava, do porto, o rio barrento, seduzido pelo rumor das águas. Na ponte as pessoas paravam de quando em vez e olhavam para baixo, assustadas. O rio sobe há semanas, prenhe das chuvas. O cais antigo ainda em movimento, com pessoas saindo dos barcos em silêncio. Disseram por perto que o volume era ainda maior, e que abaixava lentamente. Parnaíba se rendia ao rio, irmão gêmeo a tolher pessoas em suas casas com a enchente. Há muito já não se dependia dele para viver, vender, viajar. Os mais velhos ainda resmungam sobre o tempo em que ali, no porto, girava a renda e o futuro das gentes. Hoje está tudo perdido - perdido. Canoas saem sem brumo para a pesca pequena, barcos para o passeio de turistas, e o resto se move por outro meio. Às vezes encontro em Parnaíba esse encantamento de cidade ribeirinha muito próprio da região do Amazonas, quando tememos, mesmo que por instinto, o dia em que as águas desafiarem o homem e tomarem a sua terra, subindo numa paciência sem tempo; chamando o homem para si e o escondendo no leito de lama, absorvendo, inalando, até que sejamos rio também.

Hard To Explain

[Speech] Não tenho muita coisa para juntar, não tenho quase nada para deixar, minhas mãos sacodem a poeira da calça por costume porque na verdade estão bem limpas, a lavei ontem. Eu fico é sem saber para onde ir, o que fazer, onde me pôr, porque a prosa é boa mas não mata minha fome. Estou curioso, somente. Começo pela dança de ontem. Sim, parto daí, antes que a memória me falhe. Estava completamente sóbrio. Com uma ânsia me devorando por dentro, mas completamente sóbrio. Acho que tive outro desses ataques que lhe falei. Me pego agarrado com uma estátua, uma falange, um deus-assombração sem muito peso, mas farto como o mundo. Corri pelos cantos, fiquei sem graça, sem fôlego bem digo, ameaçando o vento. Cortei rápido as palavras, me escondi na escuridão antes de desaparecer. Horas... Não, minto, dias. Foi por quê? Difícil explicar.

terça-feira, 22 de abril de 2008

I'll Try Anything Once [Parte Dois]

Falar da minha cidade? Tento: mas ela me escapa das mãos, da memória, da imaginação. A cidade que espelha água. A água turva do rio, fugindo para o mar. Sei que minha cidade não cresceu como esperava. Permaneceu tímida pelos limites da vida, e ficou a perder muitos de nós nos últimos anos. Onde Parnaíba me cabe? Ando pelas ruas, vejo alguns rostos conhecidos, o céu limpo da terça-feira, e me prendo na sugestão de que desviei-me do caminho, que de algum ponto já não passo mais. O sentimento dessa gente me estranha, talvez me rejeite como filho da terra. Filho fugido. Penso o que me posso fazer de Parnaíba.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

I'll Try Anything Once [Parte Um]

Interessante ensaio do Frei Betto sobre as celebrações litarárias do ano, notadamente sobre Machado de Assis e Guimarães Rosa. Enjoy it.

http://amaivos.uol.com.br/templates/amaivos/amaivos07/noticia/noticia.asp?cod_noticia=10190&cod_canal=53

quarta-feira, 16 de abril de 2008

I'll Try Anything Once [Prólogo]

Olhava para o céu opaco de agosto enquanto caminhava entre os carros. O mesmo percurso de antes, mas eu não me sentia igual. Olhava para os nomes estranhos que agora ocupavam as fachadas dos prédios velhos do centro e tentava encaixar o meu passado na retina, como se pudesse sobrepor a memória a tudo o que via. E assim a cidade foi perdendo o sentido, até se desfazer numa sombra formada de sua própria história. Os anos traçavam minha imaginação e mais longe eu fui, onde não existia objeto ou causa: o estigma dos desafortunados, arrastando-se pelas ruas. Não percebia o espaço que ocupava, anulado pela pressa com que desviavam-se de mim. Parecia que todas as vidas eram tão urgentes... Desesperadamente necessárias para esse universo compacto que tentei assimilar por algumas horas. Mas qual sentido havia nessa busca de um passado que se alterou quantas vezes eu o perscrutava? Não seria na velha loja de tecidos que permanecia inalterada, como uma relíquia dos tempos, entre duas praças, que encontraria minha verdade. Seria talvez longe daqui, em algum lugar onde eu ainda faça parte do processo. Algum lugar de lugar nenhum?

[Texto escrito em 9 de agosto de 2007]